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Rohingya recorrem à blockchain para resolver crise de Identidade

Uma minoria muçulmana conhecida com Rohingya recorreu a tecnologia blockchain para ajudar contra um de seus maiores problemas: a falta de uma identidade oficial reconhecida pelas autoridades. Historicamente, o grupo religioso sofre represálias em seu país natal, Myanmar, e precisa buscar refúgio em outros países. Com a cidadania negada em Myanmar, a minoria Muçulmana foi alvo de uma campanha de violência brutal pelos militares que durou até o ano passado.

A “Operação de liberação”, liderada pela milícia budista, enviou mais de 700.000 pessoas para Bangladesh sem nenhum tipo de passaporte ou identificação oficial.

O governo de Myanmar aceitou receber os Rohingya de volta, mas estão recusando em conceder cidadania ao grupo. Muitos Rohingya não querem retornar para casa sem um lar ou uma identidade. Essa crescente crise levou ao Projeto Rohingya para que uma solução digital fosse encontrada. “Por que uma entidade centralizada como um banco ou um governo possui minha identidade?” diz Mohammed Noor, líder da comunidade Rohingya em Kuala Lampur. “Quem são eles para dizer quem eu sou?”.

Usando uma tecnologia baseada em blockchain, Noor está tentando usar cartões de identidade digitais visando ajudar os Rohingya que estão na Malásia, Bangladesh e Arábia Saudita a acessar serviços como escolas e bancos, a esperança é que o sucesso dessas tentativas possa ajudar a comunidade que está localizada no sudeste asiático.

Para explicar melhor como funciona o esquema de Noor, uma base de dados em blockchain será usada para guardar as identidades digitais que seriam emitidas uma vez que o teste para verificar se eles são Rohingya genuínos fosse feito.

O objetivo de Noor é dar aos Rohingya o poder de recuperar suas identidades com um sistema que possibilite o país anfitrião a reconhecer os documentos, o que permitiria acesso a programas sociais, direitos legais, educação e acesso à saúde pública. Atualmente o projeto Rohingya está buscando enfrentar a principal questão dos refugiados: a exclusão financeira.

O time de Noor é um grupo de refugiados localizados ao redor do mundo que estão buscando utilizar o poder da tecnologia blockchain para recuperar suas identidades.

O conceito de blockchain vem da criptomoeda bitcoin, que rastreia o movimento do dinheiro ao redor do ecossistema agrupando blocos de transações de 10 em 10 minutos, cada um deles está ligado a um outro inseparavelmente em uma corrente de transações que permite o rastreio até o momento de criação da moeda.

Pela forma em como esses blocos foram criados e ligados uns aos outros, eles podem servir como um registro imutável de posse de qualquer coisa, mesmo sem a presença de uma autoridade verificadora central. Essa propriedade – A ideia de uma base de dados descentralizada – se tornou atraente para usos que vão além do dinheiro digital. Com blockchain, startups estão oferecendo soluções que vão desde computação em nuvem até cartões comerciais virtuais.

A tecnologia recentemente ganhou popularidade em utilizações humanitárias com ONGS utilizando blockchain para distribuir dinheiro de uma maneira barata, além de itens para ajudar refugiados.

A certidão de nascimento de Tufic Al Rjula foi destruida no Kuwait durante a primeira guerra do Golfo. Vivendo por dois anos em um campo de refugiados holandês e trabalhando no processo de asilo, Al Rjula conheceu mais de 1.000 outros homens, mulheres e crianças “invisíveis” que tiveram seus documentos destruídos ou inverificáveis.

Anos depois, após ter tido experiência própria com documentos de identificação perdidos, esquecidos ou mal utilizados, Al Rjula foi co-fundador, ao lado de Jimmy Snoek, da premiada startup Tykn. A Tykn é uma empresa que tem a missão de fornecer uma identificação independente para todos, isto é, possibilitar que a identificação não dependa de um órgão validador. Al Rjula cita o sistema de cartões de identificação dos judeus utilizado pelos nazistas como exemplo de como os processos de identificação tradicionais podem ser explorados e contaminados.

Snoek diz que enquanto a identificação em papel não é à prova de falsificação, discriminação e perdas, uma identificação baseada em blockchian oferece uma maior segurança.

Nos países em que são acolhidos, os refugiados são forçados a viver na periferia da sociedade. Incapazes de trabalhar legalmente e sendo obrigados a operar na economia de uma forma “anônima” (os refugiados podem operar apenas com dinheiro e acabam sendo explorados por isso) por não conseguirem abrir uma conta em um banco, por exemplo.

Iniciativas baseadas em blockchain, como o Projeto Rohingya, podem permitir que as pessoas construam relações necessárias para participar na economia moderna global e prevenir que as próximas gerações continuem sendo “invisíveis” na sociedade. Essas iniciativas também abrem a possibilidade para que os refugiados enviem dinheiro para sua própria pátria sem precisar pagar por altas taxas de transação.

No campo de refugiados de Azraq, na Jordânia, o Programa Alimentar Mundial (WFP) está usando blockchain e biometria para ajudar refugiados Sírios a comprar mantimentos com um sistema de vouchers. O uso dessa tecnologia permite que a WFP possa anular as taxas bancárias.

Porém Al Rjula afirma que a privacidade continua sendo uma questão importante, segundo ele “a tecnologia está amadurecendo, mas ainda falta uma maior implementação de startups e empresas emergentes de tecnologias”.

O envolvimento de uma tendência em tecnologia, como é o blockchain, muitas vezes pode ser o diferencial de uma empresa (com ou sem fins lucrativos) em relação ao mercado. Mas companhias como a Tykn ainda precisam passar pelos mesmos problemas que as empresas com bancos de dados tradicionais enfrentam, mas com um diferencial que é de convencer governos, empresas e ONGs que blockchain é uma tecnologia confiável e aplicável a diversas situações.

 Blockchain oferece esperança ou está apenas na moda?

Iniciativas humanitárias baseadas em blockchain também contam com o problema de prestação de contas em seus esforços para ajudar refugiados. Dilek Genk, um candidato a PhD da Universidade de Edimburgo que estuda aplicações de blockchain para ajuda e desenvolvimento humanitário, afirma que a comunidade continua a buscar inovação com a mesma crença de “falhar rápido e frequentemente” do Vale do Silício. Porém, fazer experimentos em uma população vulnerável está fundamentalmente em desacordo com os princípios humanitários e deixa de abordar a raiz política dos problemas dos refugiados.

Esse texto foi traduzido de um artigo do jornal Britânico “The Guardian” e está disponível em sua versão original no link: http://bit.ly/2N1ywdR